Ajuda ao Entendimento da Bíblia
[Matéria selecionada, condensada, da enciclopédia bíblica Aid to Bible Understanding, Edição de 1971.]
BONDADE. [Continuação]
A BONDADE CONCEDE BENEFÍCIOS
A bondade também pode significar beneficência, a concessão de coisas benéficas para outros. Jeová deseja expressar bondade para com seu povo, como o apóstolo Paulo orou em favor dos cristãos em Tessalônica: “Estamos sempre orando por vós, para que o nosso Deus vos conte dignos de sua chamada e realize completamente tudo o que lhe agradar da bondade e a obra de fé com poder.” (2 Tes. 1:11) Muitos são os exemplos da bondade abundante de Deus para com aqueles que se voltam para ele. (1 Reis 8:66; Sal. 31:19; Isa. 63:7; Jer. 31:12, 14) Ademais: “Jeová é bom para com todos, e suas misericórdias estão sobre todos os seus trabalhos.” (Sal. 145:9) Ele tem um propósito em demonstrar o bem para com todos, para que sua bondade possa mover muitos a servi-lo, e para que, desta forma, ganhem a vida. Semelhantemente, qualquer pessoa que demonstre bondade é uma bênção para seus associados. — Pro. 11:10.
Como servos de Deus e imitadores dele, ordena-se que os cristãos provem qual é a boa vontade de Deus para eles (Rom. 12:2); devem apegar-se ao que é bom (Rom. 12:9); praticá-lo (Rom. 13:3); trabalhar em prol do que é bom (Rom. 2:10); segui-lo (1 Tes. 5:15); ser zelosos em favor disso (1 Ped. 3:13); imitar o que é bom (3 João 11); e vencer o mal com isso. (Rom. 12:21) Devem fazer o bem especialmente aos aparentados com eles na fé cristã; adicionalmente, isso deve ser praticado para com todos os outros. — Gál. 6:10.
UM TERMO RELACIONADO
Similar à palavra grega para bom (agathós) há uma outra palavra kalós. Esta última denota o que é intrinsecamente bom, belo, bem adaptado às suas circunstâncias ou fins (como terreno ou solo excelente; Mat. 13:8, 23), e o que é de excelente qualidade, inclusive o que é eticamente bom, correto ou honroso (como o nome de Deus; Tia. 2:7). Está intimamente relacionado, em significado, a bom; mas pode distinguir-se por ser traduzido “excelente”, “correto”, “digno”, “honesto”, “lindo” ou “bem”.
BRANDURA. Sobre o substantivo grego praytes, afirma A New Testament Word Book (Glossário do Novo Testamento), de William Barclay: “No grego clássico . . . no que se refere a coisas, significa ‘suave’. É usado, por exemplo, para uma brisa suave ou uma voz suave. No que se refere a pessoas, significa ‘brando’ ou ‘gracioso’.” Sobre o adjetivo prays, a mesma obra comenta: “Há delicadeza em praus, mas, atrás da delicadeza há a força do aço, . . . não se trata de desfibrada gentileza, de apego sentimental, de quietude passiva” W. E. Vine, em An Expository Dictionary of New Testament Words (Dicionário Expositivo de Palavras do Novo Testamento), comenta: “PRAUTES . . . não consiste ‘apenas no comportamento exterior [duma pessoa]; nem mesmo em seu relacionamento com seu próximo; tem que ver bem pouco com sua simples disposição natural. Antes, é uma graça intimamente unida da alma; e o exercício dela se volta primeiro e mormente para com Deus. Trata-se daquela disposição de espírito em que aceitamos Seus tratos conosco como sendo bons, por conseguinte, sem questionar ou resistir; acha-se intimamente vinculada com a palavra tapeinophrosune [humildade], e a segue diretamente.’”
A brandura de temperamento ou de espírito não é um atributo de alguém de caráter tíbio. Jesus Cristo disse: “Sou de temperamento brando e humilde de coração.” (Mat. 11:29; 2 Cor. 10:1) Todavia, Jesus dispunha do pleno poder de seu Pai em seu apoio, e era firme a favor do que é correto, usando grande liberdade de palavra e de ação quando se exigia isso. — Mat. 23:13-39; compare com 21:5.
A pessoa de temperamento brando é assim porque tem fé e uma fonte de vigor. Não fica facilmente desequilibrada, nem outros a movem a perder seu bom senso. A falta de brandura de temperamento é resultado de insegurança, de frustração, de falta de fé e esperança, e até mesmo do desespero. Tal pessoa é descrita pelo provérbio: “Como uma cidade arrombada, sem muralha, é o homem que não domina seu espírito.” (Pro. 25:28) Fica exposta e vulnerável à invasão de todo e qualquer pensamento impróprio, que a pode motivar a ações incorretas.
UM FRUTO DO ESPÍRITO
A brandura é fruto do espírito santo de Deus, de sua força ativa. (Gál. 5:22, 23) Deus, portanto, é a Fonte da brandura, e a pessoa precisa recorrer a Ele, pedindo seu espírito, e tem de cultivar este fruto do espírito, a fim de ter genuína brandura de temperamento. Por isso, não é adquirida pelo exercício de simples força de vontade, mas resulta de nos achegarmos a Deus.
A falta de brandura resulta em indevida excitabilidade, dureza, falta de autodomínio, e em lutas. Por outro lado, aconselha-se o cristão a preservar a unidade e a paz por meio de “humildade mental e brandura”. — Efé. 4:1-3.
“Brandura”, na Bíblia, é freqüentemente associada a “espírito”, como, por exemplo, “brandura de espírito”, ou “espírito brando”. A genuína brandura, assim, é algo mais do que uma qualidade exterior, transitória ou ocasional, mas faz parte da constituição ou do temperamento da pessoa. — 1 Ped. 3:3, 4.
Escreve o apóstolo Paulo: ‘Revesti-vos da brandura’, o que, se lido de modo superficial, pareceria indicar que se trata de algo parecido a um verniz, visando a simples aparência exterior, mas, no mesmo contexto, ele admoesta: “Revesti-vos da nova personalidade, a qual por intermédio do conhecimento exato, está sendo renovada segundo a imagem Daquele que a criou.” (Col. 3:10, 12; Efé. 4:22-24) Isto mostra que a brandura é deveras uma característica da personalidade, primariamente uma característica que não foi naturalmente herdada, mas obtida como fruto do espírito de Deus, mediante o conhecimento exato e a aplicação do mesmo.
ESSENCIAL PARA OS QUE EXERCEM A SUPERVISÃO
Em sua carta de instruções ao jovem Timóteo sobre como cuidar corretamente da congregação, Paulo ordenou-lhe como cuidar de assuntos difíceis, dizendo: “O escravo do Senhor não precisa lutar, porém, precisa ser meigo para com todos, qualificado para ensinar, restringindo-se sob o mal, instruindo com brandura os que não estiverem favoravelmente dispostos, visto que talvez Deus lhes dê arrependimento.” (2 Tim. 2:24, 25) Aqui vemos uma similaridade entre a brandura e a longanimidade, no sentido de que a pessoa discerne por que tem de lidar com tal dificuldade, que Deus a permitiu, e que, como superintendente, precisa lidar com a mesma nos melhores interesses do(s) indivíduo(s) envolvido(s). Tem de enfrentar a dificuldade até que seja resolvida, sem ficar superexcitado. — Veja também Tito 3:1-7.
De novo, Paulo se dirige aos que são espiritualmente maduros na congregação, delineando a responsabilidade que lhes cabe: “Mesmo que um homem dê um passo em falso antes de se aperceber disso, vós, os que tendes qualificações espirituais, tentai reajustar tal homem num espírito de brandura, ao passo que cada um olha para si mesmo, para que tu não sejas também tentado.” (Gál. 6:1) Devem ter presente como Deus tem lidado com eles. Fazendo isso, não deviam passar no homem errante uma forte reprimenda, mas deviam tentar restaurá-lo no espírito de brandura. Isto resultará muito mais eficaz e proveitoso para todos os envolvidos.
AFASTA A IRA
A brandura conseguirá resultados quando se lida com uma situação difícil ou uma pessoa irada, desfazendo a dificuldade, ao passo que a dureza ampliaria a situação difícil. O provérbio diz: “Uma resposta, quando branda, faz recuar o furor, mas a palavra que causa dor faz subir a ira.” (Pro. 15:1) A brandura pode exercer grande poder. “Pela paciência se induz ao comandante, e a própria língua suave pode quebrar um osso.” — Pro. 25:15.
ESSENCIAL QUANDO SOB DISCIPLINA
Outro excelente princípio que envolve a brandura ou a calma é expresso por Salomão. Diz respeito à tendência que talvez tenhamos de mostrar um espírito rebelde quando corrigidos ou castigados por uma autoridade. Talvez fiquemos tão indignados a ponto de deixarmos nosso lugar de correta submissão. Mas Salomão avisa: “Se o espírito de um governante se levantar contra ti, não deixes o teu próprio lugar, pois a própria calma aquieta grandes pecados.” (Ecl. 10:4; compare com Tito 3:2.) A atitude correta de calma e brandura quando sob disciplina não só evita a ira adicional da parte da autoridade, mas também nos habilita a aprimorar nossa personalidade por controlarmos nosso temperamento e mantermos nosso devido lugar, e aplicarmos a disciplina.
Isto se dá especialmente quando o regente é Jeová Deus, e quando a disciplina provém daqueles a quem Ele concedeu autoridade. (Heb. 12:7-11; 13:17) Também se aplica em nosso relacionamento com aqueles a quem Deus permitiu que detenham autoridade governamental no mundo. (Rom. 13:1-7) Mesmo quando um governante exija rudemente que o cristão explique a razão da esperança que possui, tal cristão, ao passo que coloca firmemente a obediência a Deus em primeiro lugar, deve responder “com temperamento brando e profundo respeito”. — 1 Ped. 3:15.
IRMÃO. Um varão que tem o mesmo genitor ou pais que outro. (Gên. 4:1, 2) O termo “irmão” pode indicar sobrinhos e membros da mesma tribo e nação, ou até mesmo de outra nação que tenha um antepassado comum. (Gên. 11:27; 13:8; Êxo. 2:11; Núm. 20:14) Também se aplica aos unidos numa causa geral, e que tenham alvos e propósitos similares. — 1 Reis 9:13; 5:1-12.
Na sociedade patriarcal, e sob a lei mosaica, certos privilégios e obrigações eram assumidas pelos irmãos carnais. Com a morte do pai, o irmão mais velho, o primogênito, recebia um quinhão duplo da herança da família, e a responsabilidade de atuar como cabeça da família. Um irmão carnal era o primeiro em ordem a ter direito à recompra, ao casamento levirato e a vingar o sangue. (Lev. 25:48, 49; Deut. 25:5) Relações incestuosas entre irmão e irmã foram estritamente proibidas pela lei mosaica. — Lev. 18:9; Deut. 27:22.
Na congregação cristã, os membros usufruem uma relação espiritual comum, análoga à de irmãos. Jesus chamou seus discípulos de irmãos. (Mat. 25:40; 28:10; João 20:17) Ele sublinhou fortemente esta relação, afirmando: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai . . . , este é meu irmão, e minha irmã e minha mãe. — Mat. 12:48-50.
Pedro, em Pentecostes, falou àqueles de lugares distantes, inclusive prosélitos, chamando a todos de “irmãos”. (Atos 2:8-10, 29, 37) Às vezes, crentes cristãos varões eram classificados como “irmãos”, e as mulheres como “irmãs” (1 Cor. 7:14, 15), mas, em geral, “irmãos” era a saudação aceita para grupos mistos e não se restringia aos varões. (Atos 1:15; Rom. 1:13; 1 Tes. 1:4) O termo é usado neste sentido em todas as cartas cristãs inspiradas, exceto três (Tito, 2 João, Judas), e nos escritos dos outros cristãos primitivos. Os apóstolos avisaram sobre “falsos irmãos” que se infiltravam nas congregações. — 2 Cor. 11:26; Gál. 2:4.
IRMÃOS DE JESUS
Os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, e duas das cartas de Paulo mencionam “os irmãos do senhor”, “o irmão do Senhor”, “seus irmãos”, “suas irmãs”, mencionando quatro dos “irmãos”: Tiago, José, Simão e Judas. (Mat. 12:46; 13:55; Mar. 3:31; Luc 8:19; João 2:12; Atos 1:14; 1 Cor. 9:5; Gál. 1:19) A maioria dos peritos bíblicos aceita a evidência cumulativa de que Jesus possuía, pelo menos, quatro irmãos e duas irmãs, e que todos eram descendentes de José e de Maria por meios naturais, depois do nascimento milagroso de Jesus.
As noções arbitrárias de que tais irmãos de Jesus eram filhos de José em um casamento anterior, ou pelo casamento levirato com a cunhada de José, têm de ser classificadas como fictícias, visto não existir confirmação fatual, nem mesmo uma sugestão neste sentido, nas Escrituras. A afirmação de que “irmão” (adelphós) neste caso significa “primo” (anepsiós) é um argumento especulativo, cuja invenção é creditada a Jerônimo, e remonta a não antes de 383 E.C. Não só falha Jerônimo em deixar de citar qualquer apoio tradicional para sua hipótese recém-formulada, mas também, em escritos posteriores, ele abandona suas opiniões e até expressa dúvidas quanto à sua “teoria dos primos”. Como comenta Lightfoot: “São Jerônimo não argumentou com nenhuma autoridade tradicional em favor de sua teoria, e que, portanto, se devia buscar evidência em seu favor somente na Escritura. Examinei a evidência bíblica, e a . . . combinação de dificuldades . . . mais do que contrabalança estes argumentos secundários em seu favor, e, com efeito, tem de levar à sua rejeição.” — St. Paul’s Epistle to the Galatians (Epístola aos Gálatas, de São Paulo), 1874, p. 258.
Nas Escrituras Gregas, quando o relato envolvia um sobrinho ou um primo, não se usou adelphós. Antes, explica-se o parentesco, como “o filho da irmã de Paulo”, “Marcos, primo [anepsiós] de Barnabé”. (Atos 23:16; Col. 4:10) As palavras gregas syggenón (“parentes”, tais como primos) e adelphón (“irmãos”) ocorrem ambas no mesmo texto, mostrando que os termos não são usados a esmo ou de forma indiscriminada nas Escrituras Gregas. — Luc. 21:16.
[Continua]